segunda-feira, 9 de novembro de 2009

À flor da pele

Baixou a cabeça tentando fugir de seu olhar. Queria esconder-se, mas não era possível. E ele a fitava incessantemente, queria engoli-la. O forte tormento causado por toda aquela observação fazia pesar sua cabeça, ela já não aguentava mais. Veio-lhe um aperto no coração, subindo para a garganta, sufocando-a. Até que não mais aguentou.
- Mas o que é? O que você quer? - ela gritou.
Calado, ele continuava a analisar.
Irritada, continuou - Vamos lá, diga! - não obteve resposta alguma - Responda! - e nada.
Tamanha raiva lhe provocou gritos quase que ensurdecedores. Berrou, berrou... Até cansar. Respirou fundo e retirou de si toda a força que restava em seu corpo. Então, num movimento brusco, atirou-se para cima dele.
E por entre cacos ensanguentados, chorou.

Hoje, só por hoje, ela não olha mais reflexos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Farmácia

- Pois não, senhor? - um rapaz bem-humorado lhe pergunta.
- Eu queria um remédio, por favor... - responde.
- Claro, senão não estaria aqui - brincou, rindo da própria piada - Qual?
- Pode ser uma caixa de comprimidos, um frasco qualquer...
- Tudo bem, mas eu preciso de uma especificação.
- Como assim?
- O que exatamente o senhor deseja? Temos medicamentos para gripe, resfriado, enjoo, pressão alta... - e começou a citar milhares de problemas que ele não queria ouvir.
- Não, nada disso - interrompeu - Só queria um remédio para dor.
- Ah, claro! Dores em geral ou algo específico?
- Tanto faz, não sei muito bem onde é...
- Cuidado com isso, senhor! Enfim, leve este aqui, que é duro na queda!
- Mesmo?
- Bem, na maioria das vezes resolve...
- Bom, era disso que eu precisava.
- É só levar naquela bancada. Boa sorte!
- Ah, obrigado.

Então direcionou-se ao caixa, entregou as cédulas. Deixou o troco com a mulher, que agradeceu a gentileza. Foi embora na esperança de ter encontrado a solução. Ingênuo, não deixou-se perceber que não havia remédio para a sua dor: a dor do coração. Pobre amante...

Por toda parte

No bombom, na flor, no chá, na batata, no doce de leite, na pipoca, no suco de laranja... No céu, nas estrelas, no escuro, na lua, no entardecer, na areia, no sol, nas nuvens....
Está na música, na poesia, no samba na fotografia. Agonia.
Nas árvores, nos pássaros, cantos.
Por perto, desperto, está mais próximo do que imagina.
Está dentro, nas veias, no sangue que corre pelo seu corpo. Nos suspiros, gritos, lágrimas. Nas curvas do seu corpo, no peito. É o estímulo que ativa seus neurônios. Tornou-se parte do que compõe o seu todo, empregnou-se nos átomos... Está em você. Está no universo e no seu próprio mundo.
Ela está por toda parte.

Discutindo com Camelo

- Olha só, quando eu disse que as letras não cabiam, era pra você fazer outras!
- Mas...
- Agora olha pro que aconteceu, todas elas soam perfeitas!
- Não, espera...
- É tristeza, é dor, é fim... Tá vendo?!
- A culpa não é minha!
- Suma da minha frente!

domingo, 25 de outubro de 2009

(Des)encontros

Subiu as escadas e aproximou-se. Pude perceber sua energia, sua presença era mais do que aquilo. Como quem não queria nada, olhei de "rabo de olho", não podia deixar de fazê-lo. Apesar das lentes escuras, notei que olhares haviam sido trocados, o tipo de coisa que não precisa da visão para se saber. Eu estava em pé, o ônibus lotado, pessoas cantarolando e falando alto... Um som que eu não conseguia ouvir.
À minha frente, uma senhora e um rapaz levantaram, deixando livres dois lugares. Dois lugares. Afastei-me, dando espaço para sua saída. Meu coração palpitava, não sei por quê.
- Você não quer sentar? - ele disse. Extasiada, lamentei responder - Não, não, já vou descer... - Arrependi-me.
O silêncio chegou, fiquei sem reação. Vergonha? Talvez. Dei mais uma olhada discreta e dessa vez tive certeza de que fui descoberta. Dentes brancos reluzentes surgiram de um sorriso tímido, contrastando com sua pele morena. Sim, é vergonha! Respondi com um sorriso mais tímido ainda. Queria sair dali, mas ao mesmo tempo não queria. E agora, o que faço?
- Quer que eu segure a sua bolsa? - NÃO! Ele falou de novo!, pensei - Não, não precisa... Eu já vou descer... - Senti seu olhar agora triste, conformando-se com o fato.
Mais dois pontos se passaram. Puxei a cordinha infeliz e o sinal tocou, infeliz. Antes de me movimentar, inspirei um pouco de coragem e me despedi. Surpreendeu-se. Nessas horas eu gostaria de ler pensamentos...
Antes de descer as escadas, dei uma última olhada. Dessa vez não obtive resposta, talvez tudo fosse obra da minha imaginação. Tanto faz. Desci sorrindo e então continuei a seguir o meu rumo. Pensei que ele poderia estar pensando o mesmo... Ou não. Mas tanto faz.

sábado, 17 de outubro de 2009

Não!

Não sei se é o tormento mensal, só sei que me dói. Saudade? De quê? Carência? Tristeza? Rancor? Não exatamente...
Solidão! Isso! Achei a palavra! Bem... Mas como sentir-se só estando rodeada deles? Não sei dizer. Pareço não estar ali. No fim das contas acho que é tudo da minha cabeça. Ou não. Não, não! Não é! É de verdade...
Eles estão indo embora. Uns já foram; outros ficaram. Alguns foram fisicamente mas ainda continuam por perto. Até sumirem por completo.
Um dia vamos nos esbarrar numa esquina qualquer e não vamos nos reconhecer. Triste. Parece morte, não? Quase isso.

- Eles estão ali, parecem me olhar. Estão felizes. Eu quero estar também. Vamos nos juntar! Não. Não? Não, eles se foram. Só não sei pra onde. Mas quer saber? Apesar de tudo, valeu a pena.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Sonhos

Antes da leitura, uma observação: esse texto também foi retirado do meu "antigo" blog e eu quero deixá-lo aqui também. Dedico a uma pessoa muito especial e fundamental para a minha existência.


Todo mundo tem um sonho, um desejo, um objetivo. Existem pessoas que almejam o dinheiro, que sonham alto. Alguns homens querem ter o carro do ano, uma mansão na Lagoa ou uma cobertura na Barra da Tijuca. Algumas mulheres querem ser lindas, perfeitas, famosas, andar de motoristas e ter um cartão de crédito ilimitado.
Foi andando pelas ruas destraída e pensando na vida que percebi como meus sonhos são baixos. Brinquei de imaginar o futuro...

Num conjugado no Flamengo, acordo cedo e desço para comprar dois pães. Um cigarro aceso e o cheiro do café quente na cafeteira. Abro o laptop pra colocar uma música qualquer e danço comigo mesma. Na mesa: réguas, lápis, canetas, folhas rabiscadas e uma maquete inacabada.
Finalizo a leitura do jornal. Toca a campainha: era ela, mais uma vez, sem avisar. Pega o banco de plástico e senta ao lado do fogão enquanto eu vou preparar algo pra comer. Eu a observo. Ela está linda, como sempre foi. Cresceu, mas ainda é minha menina. Ai, ai...
Almoço pronto. Nós duas no sofá comendo... miojo, pra variar. Ah, por sorte, havia uma coca-cola na geladeira, que eu comprava só pra ela. Choca, mas isso não importa.
Conversávamos sobre a vida, profissões, amores antigos. Ríamos de besteiras e piadas internas... Ao som de Kid Abelha. Tudo havia mudado, mas ela... Ela ainda estava lá.


Ah, isso era tudo o que eu queria, definitivamente...